segunda-feira, junho 06, 2005

Leituras - Mahabharata

Iniciei ontem a leitura do Mahabharata, do sábio Vyasadeva, numa tradução e adaptação de Krishna Dharma. É um livro com 5000 anos(*) (cinco mil!), originalmente escrito em sânscrito - imaginem em que estado estão as páginas ;-).

Uma das partes do livro é o Bhagavad-gita, uma escritura sagrada para os Hindus.

Também existem traduções provavelmente mais fiéis mas bastante menos acessíveis. Uma é a de Kisari Mohan Ganguli [1883-1896].

Alguém se lembra da série que deu na televisão há muitos anos?


(*) CORRECÇÃO: o Krishna Dharma diz que tem 5000, mas de facto ninguém sabe quantos anos tem - pode ter sido escrito em 3100 a.c., mas era uma versão muito reduzida, primordial; a versão completa pode ser para aí de 500 a.c. ; enfim, é velhinho.

sexta-feira, junho 03, 2005

Leituras - A Bondade do Coração

Sem dúvida alguma, o conceito religioso fulcral que emerge do movimento mahayana no seio do budismo é o ideal do bodhisattva. Um bodhisattva, literalmente «o herói que aspira à iluminação», é um ser altruísta com uma tremenda coragem. Os bodhisattvas são como as pessoas que, apesar de serem capazes de atingirem individualmente a libertação, optam por colocar aos seus ombros a tarefa de libertarem os outros do sofrimento. [...] A convicção de um bodhisattva deve ser tal, que ele ou ele esteja pronto a passar um número infinito de vidas, se necessário, para poder garantir as aspirações ainda que de um único ser. A seguinte oração - que a propósito é uma das estrofes mais citadas pelo Dalai Lama - transmite-nos sucintamente esse espírito: -Thupten Jinpa (tradutor do Dalai Lama)
Tanto quanto dure o espaço,
e tanto quanto os seres permaneçam,
possa eu também permanecer
e dissipar o sofrimento dos seres.

quarta-feira, junho 01, 2005

Sites - LacusCurtius

Oh! que delícia! (haja tempo para a saborear) são os textos do LacusCurtius.
Li um bocadinho de As Vidas dos Césares, escrito por Caius Suetonius Tranquillus (c.71-c.135), e é simplesmente espectacular estas coisas estarem on-line.

Todo este interesse surge das minhas leituras recentes e de um programa (do Canal 2, quase 100% de certeza) em que se citavam poesias de vários poetas romanas, uma das quais ainda quase recordo, dirigida a um fulano qualquer, que para o caso não interessa, mas que por uma questão de efeito tratarei por Saturninus, até me lembrar do nome:

Sabes porque não te mando os meus poemas, Saturninus?
Para que não me mandes os teus, Saturninus...

segunda-feira, maio 30, 2005

Relatório Martim - XLI

Enfim, era uma amigdalite. Já vai no sexto dia de antibiótico e já há vários dias que não tem febre. Hoje é o dia em que regressa à escola - ultimamente quase não tem lá ido...! E já começou mal: vomitou o pequeno almoço; o que me faz pensar se o bocado de pizza que comeu ontem à noite a seguir à sopa não lhe terá caído mal... *suspiro*

P.S.: Criámos mesmo um benfiquista. Ontem o Setúbal ganhou a taça ao Benfica. Eu até achei divertido, é a minha tendência inevitável para apoiar os mais fracos. Agora o Martim, nem por isso: "Eu não acho graça nenhuma que o Benfica não tenha ganho o jogo" disse ele bem zangado... :-)

sexta-feira, maio 27, 2005

Leituras - A Bondade do Coração

Já há alguns dias que terminei a História de Roma, livro que só posso recomendar.

Desde a passada sexta-feira (há exactamente uma semana, portanto) que a leitura é outra: A Bondade do Coração (título original The Good Heart), de Sua Santidade o Dalai Lama. É uma perspectiva budista sobre os ensinamentos de Jesus, na forma de transcrições de um seminário cristão que o Dalai Lama foi convidado a dirigir.

Algumas ideias fortes:

Gentilmente, mas firme e repetidamente, [o Dalai Lama] resistiu a sugestões de que o Budismo e o Cristianismo são linguagens diferentes para as mesmas crenças essenciais. Quanto à ética e à ênfase na compaixão, fraternidade e perdão, reconheceu similitudes. Mas uma vez que o Budismo não reconhece um Deus Criador ou um salvador pessoal, ele advertiu as pessoas que se dizem «cristãs-budistas», que não se pode pôr «a cabeça de um iaque no corpo de um carneiro». - Robert Kiesly
[...]
sempre senti que devíamos ter diferentes tradições religiosas, porque os seres humanos possuem muitas e diferentes disposições mentais: uma só religião muito simplesmente não poderia satisfazer as necessidades de pessoas tão variadas. - Dalai Lama
[...]
Há técnicas específicas para desenvolvermos o sentido de equanimidade com todas as criaturas. Por exemplo, no contexto budista, podemo-nos referir ao conceito do renascimento para nos ajudar na prática da geração da equanimidade. Como estamos a discutir o cultivar da equanimidade no contexto da prática cristã, talvez seja possível invocar a ideia da criação e de que todas as criaturas são iguais, no sentido em que todas são criações do mesmo Deus. Com base nesta crença, podemos desenvolver um sentimento de equanimidade. - Dalai Lama
[Luís: agrada-me esta perspectiva utilitarista, de crenças como técnicas, um conceito muito mais fraco do que o de verdade, mas muito mais útil, e muito mais verdadeiro - porque não se assume como verdade!]

Economia - Medina Carreira na SIC

Esse programa sempre interessante que é o Negócios da Semana da SIC Notícias teve por convidado Medina Carreira (programa apresentado por José Gomes Ferreira). O senhor excedeu por uma margem grosseira a sua quota autorizada de verdades por minuto, por isso se ainda forem a tempo, vejam o programa (será retransmitido em hora aleatória, tipicamente quando menos esperarem(*), que não pude ver na íntegra mas ainda tenho esperança).
Ouvi pelo menos duas coisas, que confirmaram rigorosamente - abaixo a modéstia, viva a vaidade! - a minha opinião sobre as duas questões económicas mais importantes do momento (o que só prova que o poder do back-to-basics mental é realmente grande):

1) No mercado, a China joga sem regras. Se a Europa quer manter o seu modelo social (o que Medina Carreira aliás advoga), não tem qualquer outra hipótese senão voltar ao proteccionismo (o que J. Gomes Ferreira apelidou de um retrocesso histórico). Concordo, e já o tinha dito.
2) A questão do défice é a febre, a doença tem de ser procurada noutro lado. Não basta ficar a olhar para o termómetro. Concordo, e já o tinha dito (deus, até com a mesma alegoria!). Neste ponto acrescentou que a Manuela Ferreira Leite fez tudo o que pôde para o reduzir, mas não conseguiu porque o crescimento das prestações sociais era inevitável. Pode ter razão. Esta eu não diria, porque manifestamente não sei.

Aqui fica então o resumo do artigo:

Negócios da Semana - O colapso financeiro do país
Medina Carreira em entrevista ao programa “Negócios da Semana”
Medina Carreira pensa que o país está à beira do precipício. O ex-ministro das Finanças concorda com as medidas anunciadas pelo Governo mas não acredita que resolvam o problema. E deixa o aviso: o Estado pode abrir falência em poucos anos.
É positivo que se aumente o IVA. É o imposto que mais rentável e rápido, o mais eficaz a levar dinheiro para os cofres do Estado. É legítimo que se divulguem publicamente as declarações de IRS de todos os contribuintes e que se combata a fraude e evasão com o levantamento do sigilo bancário. É uma questão de moralidade acabar com as subvenções vitalícias dos deputados. As medidas anunciadas pelo Governo para combater o défice até merecem a nota positiva de Medina Carreira… mas tem que ser feito mais. Sobretudo do lado da despesa, que tem que ser travada. Se assim não for, o país entra em colapso financeiro dentro de 10 anos, avisa o ex-ministro das Finanças, que quer ouvir outras medidas do ministro das Finanças, sobretudo no que toca às despesas sociais. Segundo o economista, só nos últimos 4 anos os gastos do Estado com protecção social cresceram a um ritmo de 150 milhões de euros por mês. Por isso, defende uma diminuição nas reformas mais altas e admite que sejam dispensados funcionários públicos. Aconselha ainda que seja criado um fundo para a reestruturação da máquina do Estado. O défice – concluiu o ex-ministro - é só um dos sintomas da doença das contas públicas. Por isso, o governo tem de ir mais longe e tomar medidas estruturais de redução da despesa. E tem também de abandonar investimentos como o TGV ou a Ota… projectos que Medina Carreira apelida de “disparates”.


(*) que eu nunca sei quando dá, mas que acabo com frequência por ver nos horários mais díspares; parece que dá primeiro à quinta-feira à noite, depois ninguém sabe...

terça-feira, maio 24, 2005

Relatório Martim - XL (*)

A coisa ainda não melhorou. Passou a noite com febre. Se tivesse sido um pouco pior, já estaríamos a esta hora no consultório da Pediatra, mas como não foi demasiado mau esperamos para ver como está à tarde. Estou convencido de que não é nada de especial, mas como já vomitou duas vezes pode ser uma gastroenterite. Na onda das coincidências, é a segunda vez que vamos ao Corte Inglês (e jantamos lá) e que ele fica doente no dia a seguir. Não é caso para matar uma galniha preta e pôr ao luar, mas dá que pensar. No entanto, não come lá nada de particularmente suspeito. Mesmo nada.

Numa onda positiva, só uma pequena história, de domingo (antes da febre). Fomos ao Pingo Doce. Andávamos na zona da fruta, que tem uns quantos expositores, e onde vai desembocar um corredor por onde vinha um casal com um carrinho. O Martim ia a passar mesmo em frente ao fim do corredor e, ao ver os senhores a aproximarem-se (a pouco mais de 1 metro), estendeu a mão em sinal de «stop» e disse Desculpe. A senhora fez cara de espantada e disse "Olha, é mais educado que muita gente grande" e depois fez-lhe umas festinhas na cabeça e foi-se embora divertida.

Mais tarde, na caixa, estava para lá a fazer uns disparates com o carrinho, e eu estava a mandá-lo parar. Como não me ligou nenhuma, ao fim de umas quantas vezes dei-lhe uma palmadita no rabo. Sem força nenhuma, mas de forma um bocado brusca. Ficou a chorar, a dizer "Pai, dói-me o rabo", ou talvez o orgulho; mais provavelmente, pensou que eu estava zangado. Lá lhe fiz uma festita na cabeça e dei-lhe um beijinho - pois, estava arrependido, estava. Em casa pedi-lhe desculpa por lhe ter dado a palmadita e perguntei-lhe se ele estava zangado comigo. "Não pai, não estou zangado... estou muito contente!". O que dizer, senão que - sim, Rita - ele é melhor que nós dois; ou que eu, pelo menos.

(*) Sobre a numeração romana, que isto vai começar a complicar...