Mais uma publicação da Gradiva - esta editora é realmente sinónimo de qualidade! Na sequência de uma série de sessões sobre Matemática que o Professor Jorge Buescu apresentou na empresa onde trabalho (são estes momentos que me fazem realmente sentir privilegiado de lá trabalhar), e aproveitando o embalo, li numa penada este livro do Professor (na verdade já terminei há umas semanas). Apresenta interessantes questões matemáticas de forma atraente e acessível, com a ajuda de um humor inteligente, pelo que constitui uma leitura agradável e motivante, a saber a pouco. Por isso mesmo já tenho comigo os seus dois outros livros: O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias e Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos. Escusado será dizer qual é a editora.
quarta-feira, junho 09, 2010
sábado, abril 17, 2010
Leituras - Never Tell Too Plainly
Contrariando a tendência habitual de mencionar aqui neste blogue os livros que ando a ler, vou mencionar dois artigos que encontrei relativos ao Budismo Zen.
O primeiro é um estudo interessantíssimo sobre o método de comunicação utilizado pelo Budismo Zen:
The Pragmatics of ‘Never Tell Too Plainly’: indirect communication in Chan Buddhism
Youru Wang, Philosophy Department, The Chinese University of Hong Kong, Shatin, NT, Hong Kong
Asian Philosophy, Vol. 10, No.1, 2000
http://www.thezensite.com/ZenEssays/Philosophical/Never_Tell_Too_Plainly.html
O segundo, parece-me explicitar maravilhosamente a essência do Zen (numa abordagem explicativa em contradição com o descrito no artigo anterior?... ou talvez não):
Actualizing the Fundamental Point (Genjo-koan)
Written in mid-autumn, the first year of Tempuku 1233, and given to my lay student Koshu Yo of Kyushu Island. {Revised in} the fourth year of Kencho {I252}.
http://www.thezensite.com/ZenTeachings/Dogen_Teachings/GenjoKoan_Aitken.htm
O primeiro é um estudo interessantíssimo sobre o método de comunicação utilizado pelo Budismo Zen:
The Pragmatics of ‘Never Tell Too Plainly’: indirect communication in Chan Buddhism
Youru Wang, Philosophy Department, The Chinese University of Hong Kong, Shatin, NT, Hong Kong
Asian Philosophy, Vol. 10, No.1, 2000
http://www.thezensite.com/
O segundo, parece-me explicitar maravilhosamente a essência do Zen (numa abordagem explicativa em contradição com o descrito no artigo anterior?... ou talvez não):
Actualizing the Fundamental Point (Genjo-koan)
Written in mid-autumn, the first year of Tempuku 1233, and given to my lay student Koshu Yo of Kyushu Island. {Revised in} the fourth year of Kencho {I252}.
http://www.thezensite.com/
Leituras - O Silmarillion e O Senhor dos Anéis
Como pano de fundo de outras leituras, ando a reler o Silmarillion, em inglês. Normalmente, leio no comboio. Em casa, à noite, e porque o Martim assim insistiu (não, não fui que lho impingi, pelo menos não directamente) andamos a ler O Senhor dos Anéis - A Irmandade do Anel, em português, naturalmente. A tradução é algo fraca, temos apanhado vários erros ortográficos e nem sempre fico agradado com as traduções de nomes e lugares. Um aviso à navegação, portanto: não há como ler o original. Nestes livros, a sonoridade das palavras tem uma importância fundamental, e há poemas, canções. Em tudo isso se perde detalhe precioso, a alma do original.
domingo, abril 04, 2010
Leituras - How to See Yourself As You Really Are
Este livro, da autoria do Dalai Lama, é simultaneamente uma preciosa referência sobre a essência da visão budista do mundo e um manual prático de meditação. Assim, do ponto de vista prático, é precioso. Do ponto de vista literário, esqueçam. É muito redundante, é como um livro de receitas. O propósito não é ser uma leitura agradável, dar uma boa distracção. O propósito é ensinar - e não se ensinam tabuadas sem alguma monotonia.
Entretanto, percebi a "tabuada" budista, julgo eu. Mas ainda não a sei de cor. Falta-me prática. E assim nunca serei bom a fazer contas.
Entretanto, percebi a "tabuada" budista, julgo eu. Mas ainda não a sei de cor. Falta-me prática. E assim nunca serei bom a fazer contas.
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Em jeito de resposta a um comentário
Mário, só por uma questão meramente formal, uma vez que não é o cerne do seu comentário, permita-me dizer-lhe que acho que talvez não esteja a interpretar correctamente a intenção do António Gedeão. O poema não é, a meu ver, tanto sobre o bem e o mal, como sobre o livre-arbítrio em si mesmo. Penso que a ele, (como a mim, de resto) mais do que o cumprimento correcto e moral de uma noção colectiva ou até individual de bem e de mal, o que o preocupava era a hipótese - ou a certeza! - de que cada pretensa decisão que tomamos nas nossas vidas esteja absolutamente pré-determinada pelas leis da Física. Ou, alternativamente, mas não melhor, aquilo que eu penso: que ou estão mesmo pré-determinadas, ou se não estão, também não estão sob o nosso controlo, e dependem de alguma Grande - ou sub-atómica - Lotaria Universal. Mais do que o Bem e o Mal, da resposta a esta questão dependem grandes noções, como a da Liberdade Individual e da Responsabilidade, e as questões da Justiça. Eu não creio na Liberdade Individual, não creio na Moral. Não acredito na Culpa. Só acredito no castigo, com "c" minúsculo, o instrumento social, para fins sociais. Estou a falar destes conceitos nos seus sentidos absolutos, claro. Sei jogar ao jogo da vida, e da vida social, conheço as suas regras, e tento lidar com elas como toda a gente. Estou aqui a falar de dar um passo atrás, sair do tabuleiro de xadrez, deixar de ser uma das peças, levantar-me acima da mesa e olhar para o que se está a passar de fora do jogo, e ver que as regras só existem dentro do tabuleiro, e que a Realidade transcende o tabuleiro.
Enfim, voltando atrás... esta capacidade do António Gedeão para encaixar a nossa condição humana no seio da implacabilidade das Leis da Física encontrei-a eu no poema que se segue, o primeiro poema que me lembro de ser capaz de apreciar. No 8º ano, talvez?
Adianto desde já que estou bastante conformado com esta condição. Daí eu dizer que, se sou Materialista, não é por reduzir os Homens a calhaus, mas por elevar os calhaus a Homens. E parece-me tudo ser ainda mais belo do que se uma mão divina fosse responsável pelo Universo ("a mão que moldaria nas colinas", do Sérgio Godinho).
A sua interpretação do poema, que julgo portante diferente da minha, levou-o a uma incursão num terreno bem mais pantanoso para mim: o do Sentido da Vida. A sua bela frase ("Como se não bastasse ser lançados na planície, ainda nos foi dada a consciência da situação em que nos encontramos e daqui poder lançar o olhar em todas as direcções") introduz bem a questão. Quem não se questiona, uma vez na vida? E quando diz... "Não há um desígnio ou projecto que nos tenha sido dado para realizar. E se há, não temos notícia dele.", não podia concordar mais consigo. Mas é um vazio perigoso, reconheço. Sou um mau candidato a estar naquelas linhas de Apoio à Vida... se me aparece um suicida, não posso honestamente dizer-lhe mais do que... "A sério, vais dar um tiro na cabeça?... não é o meu estilo, eu sou mais daqueles tipos que vivem sem saber porquê, por vício. Um vício dos diabos. Tu não? Ok, olha, são feitios, não é? foi um prazer conhecer-te...". Queria poder dizer algo melhor ao meu filho: "Filho, vivemos para isto:. E faz sentido, vês, é óbvio, não é? É para isso que deves viver, guardar essa tua vida que para mim é preciosa, vive-a o melhor que puderes, sê feliz.". E é talvez isso que lhe vou dizer: "Sê feliz.". Nada mais parece fazer sentido. A não ser, talvez: "Busca a verdade. Encontra-a. Conhece-a. Vive-a.". Sim, talvez só a verdade seja melhor que a felicidade.
Por fim, não posso deixar a sua última pergunta sem uma resposta clara.
P: "Achas mesmo, Luis, que eu estou a tentar «iludir», «entreter», «impedir» a fatalidade? Ou só a contorná-la com razoabilidade?"
R: A um certo nível somos livres, claro. Como as bolas numa tômbola. Sabe-se lá onde vão parar? E as ondas do mar? Dão um trabalhão a simular, usando Computação Gráfica. O movimento é caótico, quem o poderia prever?... Bem, a resposta que tenho para si não é simpática: acho que ainda não se conformou com o facto de ser uma marioneta do Universo (Mário-neta?! O meu subconsciente devia ser internado!). Mas não sei se tem alternativa, eh eh. E eu não posso dizer-lhe outra coisa senão isto, por respeito à verdade. A sua saída é bastante razoável, mas só funciona, parece-me, na Realidade Convencional. O pior é conciliar a vida na Relidade Convencional com a percepção da Realidade Absoluta. E quase ninguém vive a Realidade Absoluta, só aqueles aos quais a maioria chama "alienados".
É tarde, e amanhã trabalho. Boa noite.
Enfim, voltando atrás... esta capacidade do António Gedeão para encaixar a nossa condição humana no seio da implacabilidade das Leis da Física encontrei-a eu no poema que se segue, o primeiro poema que me lembro de ser capaz de apreciar. No 8º ano, talvez?
Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Adianto desde já que estou bastante conformado com esta condição. Daí eu dizer que, se sou Materialista, não é por reduzir os Homens a calhaus, mas por elevar os calhaus a Homens. E parece-me tudo ser ainda mais belo do que se uma mão divina fosse responsável pelo Universo ("a mão que moldaria nas colinas", do Sérgio Godinho).
A sua interpretação do poema, que julgo portante diferente da minha, levou-o a uma incursão num terreno bem mais pantanoso para mim: o do Sentido da Vida. A sua bela frase ("Como se não bastasse ser lançados na planície, ainda nos foi dada a consciência da situação em que nos encontramos e daqui poder lançar o olhar em todas as direcções") introduz bem a questão. Quem não se questiona, uma vez na vida? E quando diz... "Não há um desígnio ou projecto que nos tenha sido dado para realizar. E se há, não temos notícia dele.", não podia concordar mais consigo. Mas é um vazio perigoso, reconheço. Sou um mau candidato a estar naquelas linhas de Apoio à Vida... se me aparece um suicida, não posso honestamente dizer-lhe mais do que... "A sério, vais dar um tiro na cabeça?... não é o meu estilo, eu sou mais daqueles tipos que vivem sem saber porquê, por vício. Um vício dos diabos. Tu não? Ok, olha, são feitios, não é? foi um prazer conhecer-te...". Queria poder dizer algo melhor ao meu filho: "Filho, vivemos para isto:
Por fim, não posso deixar a sua última pergunta sem uma resposta clara.
P: "Achas mesmo, Luis, que eu estou a tentar «iludir», «entreter», «impedir» a fatalidade? Ou só a contorná-la com razoabilidade?"
R: A um certo nível somos livres, claro. Como as bolas numa tômbola. Sabe-se lá onde vão parar? E as ondas do mar? Dão um trabalhão a simular, usando Computação Gráfica. O movimento é caótico, quem o poderia prever?... Bem, a resposta que tenho para si não é simpática: acho que ainda não se conformou com o facto de ser uma marioneta do Universo (Mário-neta?! O meu subconsciente devia ser internado!). Mas não sei se tem alternativa, eh eh. E eu não posso dizer-lhe outra coisa senão isto, por respeito à verdade. A sua saída é bastante razoável, mas só funciona, parece-me, na Realidade Convencional. O pior é conciliar a vida na Relidade Convencional com a percepção da Realidade Absoluta. E quase ninguém vive a Realidade Absoluta, só aqueles aos quais a maioria chama "alienados".
É tarde, e amanhã trabalho. Boa noite.
terça-feira, janeiro 05, 2010
Poema do livre arbítrio
'Há uma fatalidade intrínseca, insofismável
inerente a todas as coisas e nelas incrustrada.
Uma fatalidade que não se pode ludibriar,
nem peitar, nem desvirtuar,
nem entreter, nem comover,
nem iludir, nem impedir,
uma fatalidade fatalmente fatal,
uma fatalidade que só poderia deixar de o ser
para ser fatalidade de outra maneira qualquer,
igualmente fatal.
Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.
E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.
Já sei que escolho fatalmente o bem.
Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,
como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.
O meu lívre arbítrio
conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.'
António GEDEÃO
Novos Poemas Póstumos, 1990
O homem disse tudo. Que vou eu dizer agora? Invejo-lhe a autoria do poema.
inerente a todas as coisas e nelas incrustrada.
Uma fatalidade que não se pode ludibriar,
nem peitar, nem desvirtuar,
nem entreter, nem comover,
nem iludir, nem impedir,
uma fatalidade fatalmente fatal,
uma fatalidade que só poderia deixar de o ser
para ser fatalidade de outra maneira qualquer,
igualmente fatal.
Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.
E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.
Já sei que escolho fatalmente o bem.
Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,
como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.
O meu lívre arbítrio
conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.'
António GEDEÃO
Novos Poemas Póstumos, 1990
O homem disse tudo. Que vou eu dizer agora? Invejo-lhe a autoria do poema.
terça-feira, dezembro 01, 2009
Comentário ao artigo "Darwin e a Religião"
Comentário ao artigo "Darwin e a Religião" de Anselmo Borges (DN 28 de Novembro de 2009)
Caro Anselmo Borges,
Ao ler o seu texto senti a necessidade de proporcionar aos leitores do mesmo o devido contraponto.
O respeito pela economia do esforço leva-me de imediato a recomendar-lhe a leitura do livro de Richard Dawkins "The God Delusion" (na versão em língua inglesa, certamente, já que na versão editada em Portugal o título foi traduzido absurdamente pela expressão "A Desilusão de Deus"; outros, com mais propriedade, optaram por "Deus, Um Delírio").
No capítulo "The God Hypothesis", especificamente na secção NOMA (de "non-overlapping magisteria") e em particular na página 56 (Edição de 2006 da Bantam Press), encontraria muito sobre o que reflectir.
Assim, e procurando ser breve e objectivo, que a vida não dá tempo para mais, procurarei canibalizar o referido livro e passar as ideias essenciais, ao meu jeito (com a poupança, para já, das £20 do preço recomendado, na esperança de que as vá gastar em breve):
1) 'Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar'
A razão para acreditar em deus (perdoe a minúscula) é a fé, as razões para não acreditar resultam da aplicação da Razão (perdoe a maiúscula). fé é a razão para quando não há razões (sim, minúscula depois de um ponto já é má vontade).
"A fé é um mal precisamente porque não requer justificação e não admite argumentação", diz Dawkins (mas em inglês).
2) 'A ciência responde ao "como" e não ao "porquê" da realidade'
Quando se explica COMO uma causa produz um efeito, explica-se o PORQUÊ do efeito. Poderá haver alguma situação particular em que isto seja menos óbvio, ou até falso, mas não me lembro agora de nenhuma, e por isso a afirmação falha no mínimo por generalista. Entretanto, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para o "porquê" do que a ciência. Aliás, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para coisa alguma do que a ciência, uma vez que não tem base racional nem incorpora um processo de auto-crítica e validação, como a ciência. Porquê então a religião? Só porque não sei os próximos números do totoloto, não estou a pensar mandar a Academia de Ciências a Plutão e ir perguntar a opinião à Confraria dos Adivinhadores. Da mesma forma, às vezes é melhor chorar do que colocar uma chucha na boca. As chuchas são para os bebés, e há uma razão para isso. Encher o nosso cérebro com respostas não fundamentadas é bom para acalmar o "espírito", mas não é critério de verdade.
3) 'Assim, é tão ridículo invocar o livro do Génesis, com o seu mito da criação, lido literalmente, para negar a evolução, como invocar a ciência para provar que não há Deus'
Com efeito, provar que não há Deus (maiúsc.) recorrendo à ciência é tão ridículo como tentar apanhar um daqueles unicórnios invisíveis que habitam nas paredes da maioria das casas com um camaroeiro. Mas levar-lhes aveia diariamente não o é menos.
4) 'Aliás, há o famoso "princípio antrópico", que não demonstra Deus, mas que dá que pensar.'
Fica sem resposta, por falta de tempo e jeito. (por alguma coisa o livro custa £20!). De qualquer forma, se o mundo fosse de tal forma que não pudessemos surgir nele, então não estaríamos mesmo, e não tenho grande dificuldade em conviver com esse facto. Se estamos, estamos. Cogito ergo sum, já disseram.
5) 'O próprio Darwin viveu a questão religiosa em perplexidade'
Felizmente, Darwin, para quem estou em eterna dívida pelo seu maravilhoso contributo, não é o Messias da Ciência. A Ciência não depende dele para estar correcta ou errada, a Ciência não tem de se reduzir às suas limitações (menores que as minhas, ao que parece) nem às de ninguém. Assim, as dúvidas de um homem não servem para suportar a eterna dúvida do colectivo. Infelizmente, também a irredutível honestidade intelectual de um homem isolado não é suficientemente contagiosa:
"Contrary to the fantasies of the fundamentalists, there was no deathbed conversion, no last minute refuge taken in a comforting vision of a heaven or an afterlife. For Carl, what mattered most was what was true, not merely what would make us feel better. Even at this moment when anyone would be forgiven for turning away from the reality of our situation, Carl was unflinching. As we looked deeply into each others eyes, it was with a shared conviction that our wondrous life together was ending forever."
- Ann Druyan (esposa de Carl Sagan)
Permita-me uma última citação, antes de me despedir com os votos cordiais de um maior acesso à verdade para todos (afinal o que poderá haver de mais belo?)
"Do not believe in anything simply because you have heard it. Do not believe in anything simply because it is spoken and rumored by many. Do not believe in anything simply because it is found written in your religious books. Do not believe in anything merely on the authority of your teachers and elders. Do not believe in traditions because they have been handed down for many generations. But after observation and analysis, when you find that anything agrees with reason and is conducive to the good and benefit of one and all, then accept it and live up to it."
- Richard Dawkins... ah, não, afinal foi Buda (mas não em inglês).
Caro Anselmo Borges,
Ao ler o seu texto senti a necessidade de proporcionar aos leitores do mesmo o devido contraponto.
O respeito pela economia do esforço leva-me de imediato a recomendar-lhe a leitura do livro de Richard Dawkins "The God Delusion" (na versão em língua inglesa, certamente, já que na versão editada em Portugal o título foi traduzido absurdamente pela expressão "A Desilusão de Deus"; outros, com mais propriedade, optaram por "Deus, Um Delírio").
No capítulo "The God Hypothesis", especificamente na secção NOMA (de "non-overlapping magisteria") e em particular na página 56 (Edição de 2006 da Bantam Press), encontraria muito sobre o que reflectir.
Assim, e procurando ser breve e objectivo, que a vida não dá tempo para mais, procurarei canibalizar o referido livro e passar as ideias essenciais, ao meu jeito (com a poupança, para já, das £20 do preço recomendado, na esperança de que as vá gastar em breve):
1) 'Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar'
A razão para acreditar em deus (perdoe a minúscula) é a fé, as razões para não acreditar resultam da aplicação da Razão (perdoe a maiúscula). fé é a razão para quando não há razões (sim, minúscula depois de um ponto já é má vontade).
"A fé é um mal precisamente porque não requer justificação e não admite argumentação", diz Dawkins (mas em inglês).
2) 'A ciência responde ao "como" e não ao "porquê" da realidade'
Quando se explica COMO uma causa produz um efeito, explica-se o PORQUÊ do efeito. Poderá haver alguma situação particular em que isto seja menos óbvio, ou até falso, mas não me lembro agora de nenhuma, e por isso a afirmação falha no mínimo por generalista. Entretanto, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para o "porquê" do que a ciência. Aliás, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para coisa alguma do que a ciência, uma vez que não tem base racional nem incorpora um processo de auto-crítica e validação, como a ciência. Porquê então a religião? Só porque não sei os próximos números do totoloto, não estou a pensar mandar a Academia de Ciências a Plutão e ir perguntar a opinião à Confraria dos Adivinhadores. Da mesma forma, às vezes é melhor chorar do que colocar uma chucha na boca. As chuchas são para os bebés, e há uma razão para isso. Encher o nosso cérebro com respostas não fundamentadas é bom para acalmar o "espírito", mas não é critério de verdade.
3) 'Assim, é tão ridículo invocar o livro do Génesis, com o seu mito da criação, lido literalmente, para negar a evolução, como invocar a ciência para provar que não há Deus'
Com efeito, provar que não há Deus (maiúsc.) recorrendo à ciência é tão ridículo como tentar apanhar um daqueles unicórnios invisíveis que habitam nas paredes da maioria das casas com um camaroeiro. Mas levar-lhes aveia diariamente não o é menos.
4) 'Aliás, há o famoso "princípio antrópico", que não demonstra Deus, mas que dá que pensar.'
Fica sem resposta, por falta de tempo e jeito. (por alguma coisa o livro custa £20!). De qualquer forma, se o mundo fosse de tal forma que não pudessemos surgir nele, então não estaríamos mesmo, e não tenho grande dificuldade em conviver com esse facto. Se estamos, estamos. Cogito ergo sum, já disseram.
5) 'O próprio Darwin viveu a questão religiosa em perplexidade'
Felizmente, Darwin, para quem estou em eterna dívida pelo seu maravilhoso contributo, não é o Messias da Ciência. A Ciência não depende dele para estar correcta ou errada, a Ciência não tem de se reduzir às suas limitações (menores que as minhas, ao que parece) nem às de ninguém. Assim, as dúvidas de um homem não servem para suportar a eterna dúvida do colectivo. Infelizmente, também a irredutível honestidade intelectual de um homem isolado não é suficientemente contagiosa:
"Contrary to the fantasies of the fundamentalists, there was no deathbed conversion, no last minute refuge taken in a comforting vision of a heaven or an afterlife. For Carl, what mattered most was what was true, not merely what would make us feel better. Even at this moment when anyone would be forgiven for turning away from the reality of our situation, Carl was unflinching. As we looked deeply into each others eyes, it was with a shared conviction that our wondrous life together was ending forever."
- Ann Druyan (esposa de Carl Sagan)
Permita-me uma última citação, antes de me despedir com os votos cordiais de um maior acesso à verdade para todos (afinal o que poderá haver de mais belo?)
"Do not believe in anything simply because you have heard it. Do not believe in anything simply because it is spoken and rumored by many. Do not believe in anything simply because it is found written in your religious books. Do not believe in anything merely on the authority of your teachers and elders. Do not believe in traditions because they have been handed down for many generations. But after observation and analysis, when you find that anything agrees with reason and is conducive to the good and benefit of one and all, then accept it and live up to it."
- Richard Dawkins... ah, não, afinal foi Buda (mas não em inglês).
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