Este livro, da autoria do Dalai Lama, é simultaneamente uma preciosa referência sobre a essência da visão budista do mundo e um manual prático de meditação. Assim, do ponto de vista prático, é precioso. Do ponto de vista literário, esqueçam. É muito redundante, é como um livro de receitas. O propósito não é ser uma leitura agradável, dar uma boa distracção. O propósito é ensinar - e não se ensinam tabuadas sem alguma monotonia.
Entretanto, percebi a "tabuada" budista, julgo eu. Mas ainda não a sei de cor. Falta-me prática. E assim nunca serei bom a fazer contas.
domingo, abril 04, 2010
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Em jeito de resposta a um comentário
Mário, só por uma questão meramente formal, uma vez que não é o cerne do seu comentário, permita-me dizer-lhe que acho que talvez não esteja a interpretar correctamente a intenção do António Gedeão. O poema não é, a meu ver, tanto sobre o bem e o mal, como sobre o livre-arbítrio em si mesmo. Penso que a ele, (como a mim, de resto) mais do que o cumprimento correcto e moral de uma noção colectiva ou até individual de bem e de mal, o que o preocupava era a hipótese - ou a certeza! - de que cada pretensa decisão que tomamos nas nossas vidas esteja absolutamente pré-determinada pelas leis da Física. Ou, alternativamente, mas não melhor, aquilo que eu penso: que ou estão mesmo pré-determinadas, ou se não estão, também não estão sob o nosso controlo, e dependem de alguma Grande - ou sub-atómica - Lotaria Universal. Mais do que o Bem e o Mal, da resposta a esta questão dependem grandes noções, como a da Liberdade Individual e da Responsabilidade, e as questões da Justiça. Eu não creio na Liberdade Individual, não creio na Moral. Não acredito na Culpa. Só acredito no castigo, com "c" minúsculo, o instrumento social, para fins sociais. Estou a falar destes conceitos nos seus sentidos absolutos, claro. Sei jogar ao jogo da vida, e da vida social, conheço as suas regras, e tento lidar com elas como toda a gente. Estou aqui a falar de dar um passo atrás, sair do tabuleiro de xadrez, deixar de ser uma das peças, levantar-me acima da mesa e olhar para o que se está a passar de fora do jogo, e ver que as regras só existem dentro do tabuleiro, e que a Realidade transcende o tabuleiro.
Enfim, voltando atrás... esta capacidade do António Gedeão para encaixar a nossa condição humana no seio da implacabilidade das Leis da Física encontrei-a eu no poema que se segue, o primeiro poema que me lembro de ser capaz de apreciar. No 8º ano, talvez?
Adianto desde já que estou bastante conformado com esta condição. Daí eu dizer que, se sou Materialista, não é por reduzir os Homens a calhaus, mas por elevar os calhaus a Homens. E parece-me tudo ser ainda mais belo do que se uma mão divina fosse responsável pelo Universo ("a mão que moldaria nas colinas", do Sérgio Godinho).
A sua interpretação do poema, que julgo portante diferente da minha, levou-o a uma incursão num terreno bem mais pantanoso para mim: o do Sentido da Vida. A sua bela frase ("Como se não bastasse ser lançados na planície, ainda nos foi dada a consciência da situação em que nos encontramos e daqui poder lançar o olhar em todas as direcções") introduz bem a questão. Quem não se questiona, uma vez na vida? E quando diz... "Não há um desígnio ou projecto que nos tenha sido dado para realizar. E se há, não temos notícia dele.", não podia concordar mais consigo. Mas é um vazio perigoso, reconheço. Sou um mau candidato a estar naquelas linhas de Apoio à Vida... se me aparece um suicida, não posso honestamente dizer-lhe mais do que... "A sério, vais dar um tiro na cabeça?... não é o meu estilo, eu sou mais daqueles tipos que vivem sem saber porquê, por vício. Um vício dos diabos. Tu não? Ok, olha, são feitios, não é? foi um prazer conhecer-te...". Queria poder dizer algo melhor ao meu filho: "Filho, vivemos para isto:. E faz sentido, vês, é óbvio, não é? É para isso que deves viver, guardar essa tua vida que para mim é preciosa, vive-a o melhor que puderes, sê feliz.". E é talvez isso que lhe vou dizer: "Sê feliz.". Nada mais parece fazer sentido. A não ser, talvez: "Busca a verdade. Encontra-a. Conhece-a. Vive-a.". Sim, talvez só a verdade seja melhor que a felicidade.
Por fim, não posso deixar a sua última pergunta sem uma resposta clara.
P: "Achas mesmo, Luis, que eu estou a tentar «iludir», «entreter», «impedir» a fatalidade? Ou só a contorná-la com razoabilidade?"
R: A um certo nível somos livres, claro. Como as bolas numa tômbola. Sabe-se lá onde vão parar? E as ondas do mar? Dão um trabalhão a simular, usando Computação Gráfica. O movimento é caótico, quem o poderia prever?... Bem, a resposta que tenho para si não é simpática: acho que ainda não se conformou com o facto de ser uma marioneta do Universo (Mário-neta?! O meu subconsciente devia ser internado!). Mas não sei se tem alternativa, eh eh. E eu não posso dizer-lhe outra coisa senão isto, por respeito à verdade. A sua saída é bastante razoável, mas só funciona, parece-me, na Realidade Convencional. O pior é conciliar a vida na Relidade Convencional com a percepção da Realidade Absoluta. E quase ninguém vive a Realidade Absoluta, só aqueles aos quais a maioria chama "alienados".
É tarde, e amanhã trabalho. Boa noite.
Enfim, voltando atrás... esta capacidade do António Gedeão para encaixar a nossa condição humana no seio da implacabilidade das Leis da Física encontrei-a eu no poema que se segue, o primeiro poema que me lembro de ser capaz de apreciar. No 8º ano, talvez?
Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Adianto desde já que estou bastante conformado com esta condição. Daí eu dizer que, se sou Materialista, não é por reduzir os Homens a calhaus, mas por elevar os calhaus a Homens. E parece-me tudo ser ainda mais belo do que se uma mão divina fosse responsável pelo Universo ("a mão que moldaria nas colinas", do Sérgio Godinho).
A sua interpretação do poema, que julgo portante diferente da minha, levou-o a uma incursão num terreno bem mais pantanoso para mim: o do Sentido da Vida. A sua bela frase ("Como se não bastasse ser lançados na planície, ainda nos foi dada a consciência da situação em que nos encontramos e daqui poder lançar o olhar em todas as direcções") introduz bem a questão. Quem não se questiona, uma vez na vida? E quando diz... "Não há um desígnio ou projecto que nos tenha sido dado para realizar. E se há, não temos notícia dele.", não podia concordar mais consigo. Mas é um vazio perigoso, reconheço. Sou um mau candidato a estar naquelas linhas de Apoio à Vida... se me aparece um suicida, não posso honestamente dizer-lhe mais do que... "A sério, vais dar um tiro na cabeça?... não é o meu estilo, eu sou mais daqueles tipos que vivem sem saber porquê, por vício. Um vício dos diabos. Tu não? Ok, olha, são feitios, não é? foi um prazer conhecer-te...". Queria poder dizer algo melhor ao meu filho: "Filho, vivemos para isto:
Por fim, não posso deixar a sua última pergunta sem uma resposta clara.
P: "Achas mesmo, Luis, que eu estou a tentar «iludir», «entreter», «impedir» a fatalidade? Ou só a contorná-la com razoabilidade?"
R: A um certo nível somos livres, claro. Como as bolas numa tômbola. Sabe-se lá onde vão parar? E as ondas do mar? Dão um trabalhão a simular, usando Computação Gráfica. O movimento é caótico, quem o poderia prever?... Bem, a resposta que tenho para si não é simpática: acho que ainda não se conformou com o facto de ser uma marioneta do Universo (Mário-neta?! O meu subconsciente devia ser internado!). Mas não sei se tem alternativa, eh eh. E eu não posso dizer-lhe outra coisa senão isto, por respeito à verdade. A sua saída é bastante razoável, mas só funciona, parece-me, na Realidade Convencional. O pior é conciliar a vida na Relidade Convencional com a percepção da Realidade Absoluta. E quase ninguém vive a Realidade Absoluta, só aqueles aos quais a maioria chama "alienados".
É tarde, e amanhã trabalho. Boa noite.
terça-feira, janeiro 05, 2010
Poema do livre arbítrio
'Há uma fatalidade intrínseca, insofismável
inerente a todas as coisas e nelas incrustrada.
Uma fatalidade que não se pode ludibriar,
nem peitar, nem desvirtuar,
nem entreter, nem comover,
nem iludir, nem impedir,
uma fatalidade fatalmente fatal,
uma fatalidade que só poderia deixar de o ser
para ser fatalidade de outra maneira qualquer,
igualmente fatal.
Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.
E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.
Já sei que escolho fatalmente o bem.
Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,
como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.
O meu lívre arbítrio
conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.'
António GEDEÃO
Novos Poemas Póstumos, 1990
O homem disse tudo. Que vou eu dizer agora? Invejo-lhe a autoria do poema.
inerente a todas as coisas e nelas incrustrada.
Uma fatalidade que não se pode ludibriar,
nem peitar, nem desvirtuar,
nem entreter, nem comover,
nem iludir, nem impedir,
uma fatalidade fatalmente fatal,
uma fatalidade que só poderia deixar de o ser
para ser fatalidade de outra maneira qualquer,
igualmente fatal.
Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.
Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.
E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.
Já sei que escolho fatalmente o bem.
Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,
como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.
O meu lívre arbítrio
conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.'
António GEDEÃO
Novos Poemas Póstumos, 1990
O homem disse tudo. Que vou eu dizer agora? Invejo-lhe a autoria do poema.
terça-feira, dezembro 01, 2009
Comentário ao artigo "Darwin e a Religião"
Comentário ao artigo "Darwin e a Religião" de Anselmo Borges (DN 28 de Novembro de 2009)
Caro Anselmo Borges,
Ao ler o seu texto senti a necessidade de proporcionar aos leitores do mesmo o devido contraponto.
O respeito pela economia do esforço leva-me de imediato a recomendar-lhe a leitura do livro de Richard Dawkins "The God Delusion" (na versão em língua inglesa, certamente, já que na versão editada em Portugal o título foi traduzido absurdamente pela expressão "A Desilusão de Deus"; outros, com mais propriedade, optaram por "Deus, Um Delírio").
No capítulo "The God Hypothesis", especificamente na secção NOMA (de "non-overlapping magisteria") e em particular na página 56 (Edição de 2006 da Bantam Press), encontraria muito sobre o que reflectir.
Assim, e procurando ser breve e objectivo, que a vida não dá tempo para mais, procurarei canibalizar o referido livro e passar as ideias essenciais, ao meu jeito (com a poupança, para já, das £20 do preço recomendado, na esperança de que as vá gastar em breve):
1) 'Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar'
A razão para acreditar em deus (perdoe a minúscula) é a fé, as razões para não acreditar resultam da aplicação da Razão (perdoe a maiúscula). fé é a razão para quando não há razões (sim, minúscula depois de um ponto já é má vontade).
"A fé é um mal precisamente porque não requer justificação e não admite argumentação", diz Dawkins (mas em inglês).
2) 'A ciência responde ao "como" e não ao "porquê" da realidade'
Quando se explica COMO uma causa produz um efeito, explica-se o PORQUÊ do efeito. Poderá haver alguma situação particular em que isto seja menos óbvio, ou até falso, mas não me lembro agora de nenhuma, e por isso a afirmação falha no mínimo por generalista. Entretanto, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para o "porquê" do que a ciência. Aliás, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para coisa alguma do que a ciência, uma vez que não tem base racional nem incorpora um processo de auto-crítica e validação, como a ciência. Porquê então a religião? Só porque não sei os próximos números do totoloto, não estou a pensar mandar a Academia de Ciências a Plutão e ir perguntar a opinião à Confraria dos Adivinhadores. Da mesma forma, às vezes é melhor chorar do que colocar uma chucha na boca. As chuchas são para os bebés, e há uma razão para isso. Encher o nosso cérebro com respostas não fundamentadas é bom para acalmar o "espírito", mas não é critério de verdade.
3) 'Assim, é tão ridículo invocar o livro do Génesis, com o seu mito da criação, lido literalmente, para negar a evolução, como invocar a ciência para provar que não há Deus'
Com efeito, provar que não há Deus (maiúsc.) recorrendo à ciência é tão ridículo como tentar apanhar um daqueles unicórnios invisíveis que habitam nas paredes da maioria das casas com um camaroeiro. Mas levar-lhes aveia diariamente não o é menos.
4) 'Aliás, há o famoso "princípio antrópico", que não demonstra Deus, mas que dá que pensar.'
Fica sem resposta, por falta de tempo e jeito. (por alguma coisa o livro custa £20!). De qualquer forma, se o mundo fosse de tal forma que não pudessemos surgir nele, então não estaríamos mesmo, e não tenho grande dificuldade em conviver com esse facto. Se estamos, estamos. Cogito ergo sum, já disseram.
5) 'O próprio Darwin viveu a questão religiosa em perplexidade'
Felizmente, Darwin, para quem estou em eterna dívida pelo seu maravilhoso contributo, não é o Messias da Ciência. A Ciência não depende dele para estar correcta ou errada, a Ciência não tem de se reduzir às suas limitações (menores que as minhas, ao que parece) nem às de ninguém. Assim, as dúvidas de um homem não servem para suportar a eterna dúvida do colectivo. Infelizmente, também a irredutível honestidade intelectual de um homem isolado não é suficientemente contagiosa:
"Contrary to the fantasies of the fundamentalists, there was no deathbed conversion, no last minute refuge taken in a comforting vision of a heaven or an afterlife. For Carl, what mattered most was what was true, not merely what would make us feel better. Even at this moment when anyone would be forgiven for turning away from the reality of our situation, Carl was unflinching. As we looked deeply into each others eyes, it was with a shared conviction that our wondrous life together was ending forever."
- Ann Druyan (esposa de Carl Sagan)
Permita-me uma última citação, antes de me despedir com os votos cordiais de um maior acesso à verdade para todos (afinal o que poderá haver de mais belo?)
"Do not believe in anything simply because you have heard it. Do not believe in anything simply because it is spoken and rumored by many. Do not believe in anything simply because it is found written in your religious books. Do not believe in anything merely on the authority of your teachers and elders. Do not believe in traditions because they have been handed down for many generations. But after observation and analysis, when you find that anything agrees with reason and is conducive to the good and benefit of one and all, then accept it and live up to it."
- Richard Dawkins... ah, não, afinal foi Buda (mas não em inglês).
Caro Anselmo Borges,
Ao ler o seu texto senti a necessidade de proporcionar aos leitores do mesmo o devido contraponto.
O respeito pela economia do esforço leva-me de imediato a recomendar-lhe a leitura do livro de Richard Dawkins "The God Delusion" (na versão em língua inglesa, certamente, já que na versão editada em Portugal o título foi traduzido absurdamente pela expressão "A Desilusão de Deus"; outros, com mais propriedade, optaram por "Deus, Um Delírio").
No capítulo "The God Hypothesis", especificamente na secção NOMA (de "non-overlapping magisteria") e em particular na página 56 (Edição de 2006 da Bantam Press), encontraria muito sobre o que reflectir.
Assim, e procurando ser breve e objectivo, que a vida não dá tempo para mais, procurarei canibalizar o referido livro e passar as ideias essenciais, ao meu jeito (com a poupança, para já, das £20 do preço recomendado, na esperança de que as vá gastar em breve):
1) 'Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar'
A razão para acreditar em deus (perdoe a minúscula) é a fé, as razões para não acreditar resultam da aplicação da Razão (perdoe a maiúscula). fé é a razão para quando não há razões (sim, minúscula depois de um ponto já é má vontade).
"A fé é um mal precisamente porque não requer justificação e não admite argumentação", diz Dawkins (mas em inglês).
2) 'A ciência responde ao "como" e não ao "porquê" da realidade'
Quando se explica COMO uma causa produz um efeito, explica-se o PORQUÊ do efeito. Poderá haver alguma situação particular em que isto seja menos óbvio, ou até falso, mas não me lembro agora de nenhuma, e por isso a afirmação falha no mínimo por generalista. Entretanto, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para o "porquê" do que a ciência. Aliás, não há qualquer razão para acreditar que a religião tenha melhor resposta para coisa alguma do que a ciência, uma vez que não tem base racional nem incorpora um processo de auto-crítica e validação, como a ciência. Porquê então a religião? Só porque não sei os próximos números do totoloto, não estou a pensar mandar a Academia de Ciências a Plutão e ir perguntar a opinião à Confraria dos Adivinhadores. Da mesma forma, às vezes é melhor chorar do que colocar uma chucha na boca. As chuchas são para os bebés, e há uma razão para isso. Encher o nosso cérebro com respostas não fundamentadas é bom para acalmar o "espírito", mas não é critério de verdade.
3) 'Assim, é tão ridículo invocar o livro do Génesis, com o seu mito da criação, lido literalmente, para negar a evolução, como invocar a ciência para provar que não há Deus'
Com efeito, provar que não há Deus (maiúsc.) recorrendo à ciência é tão ridículo como tentar apanhar um daqueles unicórnios invisíveis que habitam nas paredes da maioria das casas com um camaroeiro. Mas levar-lhes aveia diariamente não o é menos.
4) 'Aliás, há o famoso "princípio antrópico", que não demonstra Deus, mas que dá que pensar.'
Fica sem resposta, por falta de tempo e jeito. (por alguma coisa o livro custa £20!). De qualquer forma, se o mundo fosse de tal forma que não pudessemos surgir nele, então não estaríamos mesmo, e não tenho grande dificuldade em conviver com esse facto. Se estamos, estamos. Cogito ergo sum, já disseram.
5) 'O próprio Darwin viveu a questão religiosa em perplexidade'
Felizmente, Darwin, para quem estou em eterna dívida pelo seu maravilhoso contributo, não é o Messias da Ciência. A Ciência não depende dele para estar correcta ou errada, a Ciência não tem de se reduzir às suas limitações (menores que as minhas, ao que parece) nem às de ninguém. Assim, as dúvidas de um homem não servem para suportar a eterna dúvida do colectivo. Infelizmente, também a irredutível honestidade intelectual de um homem isolado não é suficientemente contagiosa:
"Contrary to the fantasies of the fundamentalists, there was no deathbed conversion, no last minute refuge taken in a comforting vision of a heaven or an afterlife. For Carl, what mattered most was what was true, not merely what would make us feel better. Even at this moment when anyone would be forgiven for turning away from the reality of our situation, Carl was unflinching. As we looked deeply into each others eyes, it was with a shared conviction that our wondrous life together was ending forever."
- Ann Druyan (esposa de Carl Sagan)
Permita-me uma última citação, antes de me despedir com os votos cordiais de um maior acesso à verdade para todos (afinal o que poderá haver de mais belo?)
"Do not believe in anything simply because you have heard it. Do not believe in anything simply because it is spoken and rumored by many. Do not believe in anything simply because it is found written in your religious books. Do not believe in anything merely on the authority of your teachers and elders. Do not believe in traditions because they have been handed down for many generations. But after observation and analysis, when you find that anything agrees with reason and is conducive to the good and benefit of one and all, then accept it and live up to it."
- Richard Dawkins... ah, não, afinal foi Buda (mas não em inglês).
domingo, novembro 29, 2009
Leituras - O meu nome é legião
É o primeiro livro que leio de António Lobo Antunes. Vinha com grandes expectativas. Não foram defraudadas. O livro não é bom. O livro não é óptimo. O livro é uma experiência. É como andar de carrossel. É como ver um filme 3D com aqueles óculos esquisitos, ou com os novos, menos esquisitos. É como um bom efeito stereo, arrancando-nos à nossa realidade real para nos levar a visitar uma outra, cujos sentidos nos indicam estranhamente não ser menos real. É um rapto de consciência, é tirarem-nos a cassete que temos na cabeça e substituirem-na por outra, e agora quem sou eu, tu talvez? Tu és agora eu e escreves este texto quando antes o escrevia eu e olhas para as tuas (minhas) mãos sobre o teclado e já não estou a ler, estou a escrever, mas este blogue afinal é meu ou não é, sou louco por escrever assim, que digo, escrever, pois se estou a ler, ou é a minha leitura que produz o texto à medida que o vou lendo, e apesar de as palavras já estarem escritas um pouco à frente? E se parasse agora de ler será que as palavras desapareceriam, estou louco, isto já foi tudo escrito por outra pessoa, e a prová-lo estão estas outras ideias que percorrem a minha mente e que não constam do texto.
Bem, espero ter conseguido produzir um artifício que humildemente (fica bem ser humilde) vos desperte (a mim?) a curiosidade de ler este livro.
***** (5, CINCO estrelas)
Bem, espero ter conseguido produzir um artifício que humildemente (fica bem ser humilde) vos desperte (a mim?) a curiosidade de ler este livro.
***** (5, CINCO estrelas)
Leituras - Crónicas dos átomos e das galáxias
Este livro de Huber Reeves é uma espécia de cosmologia in a nuthsell, consistindo de uma sucessão de pequenos capítulos sobre uma miríade de questões essenciais de astronomia, física, etc. Do infinitamente grande ao infinitamente pequeno.
Não me entusiasmou por aí além, mas é um bom livro ao qual voltar como referência, ou como pontapé de saída em grande para quem se começa a interessar por estas questões.
Não me entusiasmou por aí além, mas é um bom livro ao qual voltar como referência, ou como pontapé de saída em grande para quem se começa a interessar por estas questões.
Leituras -Carta sobre a felicidade e Da vida feliz
Editadas conjuntamente pela Biblioteca de Editores Independentes, a Carta sobre a felicidade de Epicuro e Da vida feliz de Séneca são uma boa leitura. Atrasei-me mais uma vez no meu comentário, uma vez que já as li há uns meses... tempus fugit!
Sem querer vender as ideias ao quilo, devo dizer que me senti meio ludibriado por concluir que a carta de Epicuro ocupa aí uns 7% do livro, com boa vontade. Ainda assim, interessante q.b.:
Sem querer vender as ideias ao quilo, devo dizer que me senti meio ludibriado por concluir que a carta de Epicuro ocupa aí uns 7% do livro, com boa vontade. Ainda assim, interessante q.b.:
Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver connosco: quando somos a morte não é, e quando a morte é somos nós que já não existimos!Séneca está mais bem representado, com o remanescente que o Prefácio concedeu ao livro. Vale realmente a pena ser lido, e aqui fica uma perolazinha:
Se um desses individuos que ladram contra a filosofia vier repetir-me o seu refrão costumeiro: «Porque é que és mais corajoso nas palavras do que na vida? [...]»
Agora vou responder-te: «Não sou um sábio e [...] não o serei nunca. Exige, pois, de mim não que seja igual aos melhores, mas que seja superior aos maus; é bastante para mim diminuir todos os dias um pouco dos meus defeitos e repreender os meus erros. Não alcancei a cura e nunca serei capaz de o fazer; [...] mas, na verdade, se comparo as minhas pernas com as vossas, ainda que débil, sou um corredor.»
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